Pixaim

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Meu cabelo é pixaim
E eu tenho orgulho sim
Do cabelo duro que a natureza me deu

Cabelo ancestral
Lá do pai neandertal
Quando tudo era imagem de Deus

Eu rio do Cristo de longos cabelos sedosos
Como se não bastasse ainda põe o olho azul
E as pessoas esquecem que ele desde menino é palestino
E se vivesse hoje ia ser chamado de terrorista.

Porque mininu de Deus querer ser igual ao estrangeiro?!
Sua imagem não tá ai, límpida no espelho?
O reflexo da sociedade embaça o que vejo
E acabo me perdendo no que sejo.

E lentes tapam o espelho da alma.
A química alisa a cuca caxeada.
E eu já não sou o que sou, mas sim o que se quer.
A capa da revista, a garota da propaganda, mais uma mentira qualquer...

Estou começando a me achar chata por estar tão crítica... Fico me perguntando se o mundo realmente está cada vez pior ou eu que comecei a abrir mais meus olhos para as tristes realidades? A única coisa boa nesse caso de racismo contra a Taís Araújo foi muita gente que insiste achar que vive em um Brasil cor de rosa super tolerante cair na real, é preciso a queridinha a única negra da rede Globo sofrer publicamente essa onda de intolerância pras pessoas pensarem "opa, isso ainda acontece em 2015." Acontece e acontece todo dia com muitas Taíses, Marias, Elisabetes, Anas. E sabe até quando isso vai acontecer, quando nós não tivermos mais vergonha do cabelo que temos, quando nós não tivermos mais vergonha dos nossos traços. Eu sofri desde criança por não ter o cabelo liso, pelo meu nariz não ser afilado, por a minha boca ser grande e o que fizeram? Viviam afirmando que meu cabelo era ruim, minha vó dizia pra eu ficar apertando meu nariz pra afinar, dizia pra eu fazer biquinho em fotos. Mas racista não, nunca, se ela mesma era filha de índia. Passei minha adolescência alisando o cabelo e ajeitando meu nariz no photoshop. É algo tão enraizado que até hoje a minha vó não percebe o mal que me fez, e eu não a culpo porque ela também é fruto da sociedade. Eu comecei a me aceitar quando abri minha mente pro mundo e vi que eu podia ser feliz sendo eu mesma. Mas e as tantas meninas que não se veem representadas nos desenhos, nas novelas, nas revistas, no outdoor, nas bonecas e só a bem pouco tempo atrás a Disney criou uma princesa negra, mas colocar cabelo crespo nela seriam demais né? Engraçado foi a Taís Araújo começar o seu discurso de indignação com "é muito chato ainda ter que falar sobre isso nos dias de hoje." Enquanto você for a única negra a ter sido protagonista de uma novela minha filha, ainda vamos ter que falar e muito...

7 novidades:

Bandys disse...

ô moça. Disse tudo.
A poesia é linda demais, seu texto
completíssimo. O mundo precisa abrir a mente.
O preconceito existe no mundo inteiro.
Seja sempre o que voce é, porque a sua essência isso minha amiga
ninguém pode mudar.
Beijos e boa semana

Ane Cristina disse...

Fico feliz de entrar em blogs como o seu, que abordam coisas que eu penso e que são tão relevantes e importantes mas não são prioritárias... Sabe o que até me dói de tanta ignorancia? Gente que diz que racista é quem vê racismo em coisas "bobas" e que hoje se vê racismo em tudo, como se NÃO falar sobre o racismo fosse fazer com que ele sumisse ou algo do tipo. Ai. É demais pra mim. E amei sua poesia!! Te segui no twitter! Bjo <3

ultracrepidante.blogspot.com

Erica Ferro disse...

Lu, o seu poema me lembrou as músicas d'O Teatro Mágico. Bem melodioso e crítico no ponto exato.
Discriminação, seja por qual motivo for, é abominável. Temos o direito de ser quem somos sem que sejamos apontados ou ridicularizados por isso. A Taís acha chato falar disso ainda nos dias de hoje? Concordo. É chato pra caramba. Porém, mais chato ainda é não falar disso e deixar que atitudes racistas como essas se repitam sem que ninguém reclame. Não vamos nos calar. Não deixaremos que nos digam como ser. Ainda bem que hoje você conseguiu se libertar e enxergar que não há problema nenhum em ser do jeito que você é.
Assuma seus cabelos, assuma seu nariz, assuma a sua vida. E seja feliz! Bem feliz!

Um mega abraço pra você.

Blog || Fan Page

Ariana Coimbra disse...

Que Poema lindo Lu! Como a Erica disse, crítico no ponto exato.
Esse país só tem me envergonhado, e preciso dizer que isso, ate agora foi o que menos me deixou puta.
Me assumo negra e com orgulho.

Beijo

Cadinho RoCo disse...

Entendo sua postura, mas o melhor meso é tratar de enaltecer o amor em nossas vidas e deixar de lado aquilo que nos incomoda sem de fato oferecer nada de bom pra nós. Não te conheço, mas te sinto linda e pronto.
Cadinho RoCo

Carolina Botelho disse...

Oi Lu, você é linda e se quiser ter cachinhos, crespo bem enroladinho ou liso continuara sendo a Lu! Eu estou passando por essa fase de descrença com a humanidade, acho que abri os olhos, pois os problemas são os mesmos. Infelizmente as pessoas pensam que liberdade de expressão é falar TUDO o que vem na cabeça, e não é assim que a banda toca. A empatia, educação e bom senso não faz mal a ninguém na hora de expor a opinião :)
Sobre a poesia, fiquei sem palavras tamanha lindeza e coerência que li. Também me questiono sobre o Deus, Jesus e Maria tão branquinhos... Falta estudar Biologia, História, Geografia e Filosofia rs

Laura Santos disse...

Um poema muito crítico de uma sociedade que faz incorporar padrões de beleza, até nas divindades, quanto mais nas pessoas!
Somos todos lindos! Eu tenho o cabelo encaracolado e quando era pequena também me esticavam o cabelo!...Ficava aí sim, horrorosa! :-)
Muito bom, o poema, Lu!
xx

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