Fique pequenininha.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

"Menininha do meu coração
Eu só quero você, a três palmos do chão
Menininha não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção"
Vinicius e Toquinho.



Parado olhando para as flores, deixei minha mente divagar indo direto ao passado lembrando daquele sorriso de dentes faltosos que ela tinha vergonha de mostrar. Então falei da fada dos dentes para que ela ficasse feliz. Guardava seus dentinhos de baixo da almofada, esperando as moedas que eram por mim colocadas em segredo.
O barulho irritante que aquele balanço velho da pracinha fazia que eram abafados pelos seus risos medrosos, enquanto pedia-me para empurrar com mais força.
E como, inocentemente, ela me tirava do sério fazendo mil perguntas sem resposta, uma atrás da outra ou quando eu pedia "Para!" e ela continuava a fazer a mesma traquinagem.
Lembro das vergonhas que ela me fez passar revelando algum segredo constrangedor em meio aos meus colegas de trabalho, mas não era por mal e só percebia quando a olhava com olhar de repressão e ela fazia aquela carinha de "ops, fiz de novo." No final todos acabavam rindo e ela soltava aquela risada travessa.
Doeu-me tanto começar vê-la crescer. Quando as suas barbies já não tinham graça e muito menos passear comigo.
E eu a fazia pagar "mico" chamando-a de nenêm na frente das colegas ou contando algo que só nós dois faziamos que agora ela achava rídiculo. No final, ninguém ria-se e ela acabava emburrada.
Para mim, ela poderia ter continuado aquela coisinha pequena que me abraçava sujando toda minha camisa branca de chocolate, que eu não me importaria.
Ai, como ela foi ficando tão linda, tão vaidosa. O orgulho misturava-se com ciúmes, eu já não era o único homem na vida dela, via seus olhinhos brilhando por tal galã da tevê que acabei pegando antipatia.
Então veio a fase dos primeiros... Primeiro sutiã, primeira festa, primeiro beijo, primeiro namorado... Que por mim teria sido castrado quando o vi com ela, escondidos no jardim.
Eu querendo protegê-la e ela começando a me odiar. Como eu queria colocá-la em um convento para ela ser sempre a minha garota inocente e pura... Foi difícil entender que todos nós precisamos amadurecer e com ela não seria diferente, como ela ia descobrir as coisas se ela vivesse presa em minha gaiola?
Então, deixei que a vida a ensinasse um pouquinho...
As lágrimas começavam a se acomular em meus olhos quando ouvi "Pai? Tá na hora."
Olhando para ela nesse exato instante vejo como eu e a vida fizemos um grande trabalho. Agora ela estava pronta para fazer sua história com seu próprio pincel e sem que eu precisasse pontilhar mostrando por onde ele devesse passar.
Beijei-a na testa, susurrei em seu ouvido "Vai, minha menininha. Você já pode voar pra longe" e a deixei no altar.

4 novidades:

Grafite disse...

LINDO!
=)

Leticía Gomes disse...

Aaaai que fofíssimo *-----*
eu fiz um texto uma vez, sobre pais e filhos. mas eu era a filha, no hospital com o pai, e não um pai (ou mãe?) no juventude da filha.

muito real, tudo o que voce escreveu.
beijo, lury.

Eraldo Paulino disse...

Adoro ver textos como stes, sabe? Penso que a próxima geração de pais tem tudo pra ser menos carete a mais participativa...

Já vi cada pai e mãe escrotos, que ver pessoas com essa disposição para serem maravilhosos me apetece.

Texto ótimo!

Bjs!

Erica Ferro disse...

Ah! Suspirei...
Que lindo, cara!
A verdade é que, por mais que queiramos que as coisas sem iguais pra sempre, é impossível mantê-las assim, afinal tudo muda, evolui, se transforma... E no final, entendemos que essa é a verdadeira graça da vida.

Beijo.

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