Rêve.

quarta-feira, 2 de junho de 2010


As lágrimas escorriam com tanta facilidade. Ouvindo Jacques Brel, sua voz grave embebida de emoção, sentia como se fosse meu o seu clamor desesperado.Ne me quitte pas.
Pela janela do avião via aquela mais bela de todas, mais traiçoeira de todas, cidade do amor. Aquela cidade que um dia foi meu sonho. O sonho daquela menininha boba que fazia biquinho ensaiando um Je t’aime em frente ao espelho. Aquela cidade que me fez beber de suas noites boêmias, de seus amores fugazes, do seu café no fim da tarde.
E eu queria que as lembranças fossem embora, mas eu não podia fugir delas, como fugia daquele meu sonho transformado em pesadelo, e elas vinham tão abruptamente como as gotas que insistiam em molhar o meu rosto.

“Sinto-me tão pequena perto de tanta magnitude, está aqui é mágico, tudo aqui é mágico!”
“Menor do que já és?“ Ah, como ele adorava caçoar da minha baixa estatura, da minha falta de coordenação motora, dos cafés amargos que o obriguei a tomar. E eu sabia exatamente o que ele queria com tanta implicância e franzia a testa, mordendo por dentro o canto do lábio inferior para assim ele sorrir, me abraçar dizendo “Minha baixinha linda.”

E que sorriso era aquele! Acho que se todas as pessoas tivessem aquele sorriso o mundo seria uma grande bolha de sabão de tão leve, mas sorrisos amarelam-se e bolhas estouram...
Mesmo depois de uma noite repleta de nossas calorosas demonstrações de paixão, eu acordava mais cedo só para ficar vendo-o dormir com sua cara de criança levada. Quantas horas de sono podia ter-me poupado, retardando assim as rugas e os cabelos brancos. Mas a gente não pensa no futuro quando está amando, pensamos no pra sempre, ignorando por total o fato de que ele não existe.
E quem pensa no fim estando ali naquela cidade que cheira paixão. Baforadas e baforadas desse perfume agridoce eram me bombardeadas quando abria a janela depois de passar quase uma hora olhando-o, e um pouco depois ouvia daquela vitrola velha, que ele herdara do avô, a introdução de La vie en rose, ele chegava por trás, cheirando meu pescoço, apertando-me pela cintura e falava baixinho “Je vois la vie en rose.”
E como é fácil perder-se nas esquinas da ilusão ali, enxergar apenas o que bonito para os olhos, pintar cuidadosamente com aquarela todos os momentos, colorir tudo que estava em preto e branco e achar tão bonitas até as atitudes mais imbecis. É vivíamos a vida cor de rosa, mas aquarela borra com água, esta que saiam dos meus olhos agora.
Eu fazia tantos planos, ele concordava com um sorriso, que me deixava cada vez mais lubridiada, achando que assim eram nossos planos. Mas era eu, só eu, que queria casar naquela igrejinha perto da casa que ele me fez chamar de nossa, era só eu que queria encerrar a cerimônia com All you need is Love como no filme “Simplesmente amor”, era só eu que queria realizar esse sonho que achava que era nosso.
E nasceu um dia tão bonito em nossos dois anos de namoro, ele saiu bem cedo para o trabalho, esse seria o dia que iríamos à igreja marcar a data, estava tão feliz e ansiosa, íamos nos encontrar de tarde perto do trabalho dele, no nosso cantinho de sempre debaixo da torre eifel, onde nos encontramos pela primeira vez, seria o ponto de partida para nossa nova vida, juntos, comigo acreditando no “até que a morte os separe.”
Estava no crepúsculo quando cheguei lá, com um sorriso de orelha a orelha, o dia fôra cansativo, mas nem pensava nos meus olhos pesados, mas sim em como ele ia me surpreender e iríamos rindo até a igreja com as nossas mãos apertadas, tão forte. Minha mente divagava como agora, lembrava de um pouco mais de dois anos atrás, onde me encontrava no mesmo lugar.

“Eu acho que tá começando a escorrer uma baba ai.” Espantei-me com tal voz que surgira do nada caçoando o fato de eu está olhando para o alto com a boca aberta há uns minutos, olhei para o lado era o garoto idiota que era amigo de uma colega da universidade que acabei conhecendo sem querer.

Quando dei por mim já era noite, fiquei preocupada, podia ter acontecido algo com ele, fui procurá-lo no trabalho, disseram-me que tinha saído já fazia um tempo, sai correndo para casa, achando que isso fazia parte do joguinho dele, entrei escutando “Paris, je m'ennuie de toi mon vieux.On se retrouvera tous les deux.Mon grand Paris”, a voz de Edith soava como em uma premonição, como aquela Paris me faria falta...
Chamei-o melosamente, ao ritmo da música, não ouvi resposta, fui vagarosamente em direção ao quarto, sorrindo, esperando encontrá-lo com pétalas de rosa sobre a cama, mas a única coisa que ali estava era um bilhete, ironicamente em um papel rosa, com tais palavras “Excusez-moi ma petite.”

para edição visual do projeito Bloínquês

ps: eras ficou grande né? .-. parabéns para você que chegou até aqui hehe, eu geralmente não costumo escrever textos grandes i talz..
ps²: Rêve significa sonho em francês.

3 novidades:

Manuh *.* disse...

que triste o fim =/
to sem palavras.
x:
me lembrou o filme "educação"
:*

Sara disse...

Que lindo aqui, adorei o blog, as palavras, as cores, os sentidos, aqui tem tudo de bom...natureza preservada, sociedade verbalizada, arte amada, vou ficar por aqui ok??!!
1 abraço

Deysilanne Sousa disse...

Eu adorei alguns trechos.
"mas sorrisos amarelam-se e bolhas estouram..."
Seu texto é sensível, triste e belo.
O final é triste, mas quantos não são?
Parabéns!
Beijos

Postar um comentário

e ai alguma novidade?


obs: comentem sobre o texto
elogios e críticas são bem vindos, contanto que leiam e mostrem sua opinião.

sigam-me no twitter: @lusampaiiio

 
Design by Pocket